segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Autobiografico demais.

Uma lágrima escorre pelas maçãs lisas do rosto dele.
Dois dias! Dois dias e parece que eles conheciam um ao outro como (des)conhecem a si mesmos.  O outro passa o polegar esquerdo em cima da lágrima. Quer aniquilá-la.
Mas logo em seguida vem outra e outra e então as pontas de seus dedos estão todas também encharcadas, e as lágrimas não páram de rolar abaixo e pingar na clavícula, no peitoral magro pouco sedutor. Ele força as pálpebras umas contra as outras, na tentativa de manter-se acordado. O outro fala em tom de sussuro tudo aquilo que ele já sabe, mas não tem resposta para. Eles precisavam exatamente um do outro, daquele exato jeito em que se encontravam, naquelas exatas formas que criaram juntos. Ele achou tudo tão mágico e humano ao mesmo tempo, que nem essa clara contradição pôde extinguir o que aconteceu. Não pôde eliminá-la. Um e outro sorriso preenche a sala.
"Posso deitar no seu colo?" O outro  passa a mão por entre os cabelos cacheados e observa a parede branca para a qual estrategicamente aponta o sofá de dois lugares. Ontem, hoje e amanhã; Agora e outros tempos se misturam, convivem juntos em histórias narradas, em momentos de se perder no passado, de projetar futuros que os satisfaz.

Uma bolha utópica os rodeava. Uma história que não poderia ser nada além do que foi. Se permanecer, não será mais a mesma, se explodir, frágil composição que tem, deixa aquele gosto de quero mais. Até onde poderia ser mais? Ele dorme, enquanto o outro  olha pela janela, deita-se ao lado, bebe um café. O outro transita, está aqui e ali. Mais ali, agora. "Eu não queria que fosse assim, sabe?". Volta pra cá. Trocam olhares de cumplicidade. Ele esfrega os olhos com uma mão, afugentando os sonhos que se misturavam com a sala-de-estar. Deixa pingar o que pertence à sua imaginação. A outra mão não parou o ir e vir carinhoso, desesperado para acalentar, menos eficaz do que ambos gostariam.
Se abraçam quando no ponto de ônibus. Trocam sinceros "Você é lindo" e "Não perca isso nunca!". Agradecem, como se não fosse para ser assim sempre. Como se as relações não devessem ser ricas, completas, sensíveis, íntegras assim.
Nunca mais.

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